MATAR OU NÃO MATAR




G. H. era professor de uma universidade e veio com um amigo. Falaram da guerra e de seus benefícios revolucionários, de como iam mudar o mundo - para melhor, evidentemente. Havia certo júbilo em sua voz quando falaram da catástrofe no mundo, porque esta prometia um mundo mais feliz. Eles conversavam, lançavam-se respostas, estimulavam-se. Então, o professor se voltou e explicou que haviam vindo por insistência de um amigo e que, embora tivesse sido pacifista durante a última guerra, esta era diferente e exigia atitude e ação muito diferentes. Desta vez, matar o inimigo era justificável, uma vez que este era completamente cruel e, se não fosse derrotado, haveria séculos de barbárie. Dessa vez a Europa devia se livrar do terror. E, embora ele tivesse advogado por métodos pacíficos, agora era a favor de destruir o inimigo. Havia fanatismo em sua voz, crueldade nos gestos e um viés de linguagem acadêmica.

 

Como eu permanecia em silêncio, ele perguntou: "Não é correto destruir o inimigo?” Até o Bhagavad Gita defende isso. “Esta guerra é justificada porque o inimigo é impiedoso".

 

Por que veio aqui, senhor? perguntei. Já que parece estar certo de sua atitude com aqueles a quem chana de inimigos, por que veio então, se é que posso perguntar? É porque deseja passar uma hora em uma discussão argumentativa, ou porque não está totalmente certo de sua atitude? Se deseja simplesmente discutir, então será inútil, mas se desejarmos elucidar nosso comportamento, então é uma outra questão.

 

Ele disse que não havia vindo para me fazer perder tempo com discussões inúteis, e, talvez, ao falar do assunto, poderia mudar em seu ponto de vista.

 

Se para vencer o mal adotarmos métodos malignos, nós mesmos nos tornaremos maus e, assim, o perpetuaremos. Combater o errado com meios equivocados fortalece ao errado. De modo que devemos encontrar os meios corretos para vencer o mal, o errado. Os meios corretos criarão os fins corretos. Matar não é sempre errado? É um valor final, absoluto - não matar - ou um valor a ser modificado, a ser mudado conforme as circunstâncias variáveis? Deve ser considerado um valor sensorial, baseado na recompensa, no prazer ou no medo, caso em que não existe um valor permanente, essencial, e, portanto, gerador do mal e da confusão? Se um valor muda constantemente, deixa de ser um valor; e os valores relativos aos sentidos estão sempre em constante mudança, de modo que qualquer estrutura construída sobre esses valores não tem permanência; portanto, gera muita confusão e equívoco. Em um dado momento você não aprova matar, e em outro está decidido a matar; e assim, sua ação, por não ter valor, é geradora de ignorância e sofrimento.

 

Matar ou não matar é algo determinado pela razão, pelas ideologias, pelos princípios? Será que os valores de nossa razão não estão plasmados em nossas paixões, em nossas necessidades e nossos medos imediatos, em nossos condicionamentos? A própria razão não seria pouco confiável, contraditória?  E pode haver algum valor permanente nas coisas da mente? Quando a mente é guiada por um princípio, torna-se escrava de sua própria criação, e nessa escravidão não há paz, não há compreensão criadora e contentamento.

 

A razão é excelente, mas deve transcender a si mesma. Deve-se aquietar para conhecer o amor, e o amor não possui valor. Quando há amor, toda violência cessa; e sendo sem valor, ele é infinito. Nele não há inimigo nem amigo, ele traz sua própria ordem e clareza. E sua própria eternidade.

 

O professor disse: “Você está pedindo o impossível".

 

Portanto, haverá guerras, brigas e miséria. Não é impossível; você tornou possível a coisa mais hedionda: este assassinato em massa. Se der todo o seu ser ao outro - coisa que chama de impossível -, de todo coração, como faz com a guerra, descobrirá que com bondade e amor os problemas mais complexos podem ser solucionados.

 

“Você acha”, perguntou ele, "que todos são capazes dessa grande transformação?"

 

Quem é que você chama de "todos"? Você e eu, certamente. Se dedicar sua mente e seu coração, acha que não consegue gerar uma transformação em si mesmo? Não haveria maior certeza dessa transformação do que tentar provocar uma mudança fundamental nos outros? Você pode manter sua própria casa limpa em vez de se preocupar com a dos outros. Ao se transformar você afeta o outro, porque você é o outro. Para chegar longe devemos começar perto. Você é o mais próximo.

 

Permanecemos bem serenos durante algum tempo, sem falar.



Transcrito do livro: Seu Universo Interior de J. Krishnamurti

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