A GUERRA ATRAVÉS DA PERSPECTIVA DO ESPÍRITO IMORTAL
Extraído do livro Do Calvário ao Infinito (1944), este texto traz uma profunda reflexão da guerra sob a ótica do espírito imortal. É certamente um complemento as questões 742 à 745 de O Livro dos Espíritos, aqui neste blog postadas.
“O
fumo dos incêndios e da pólvora invade as ruínas, que se tornam crateras, onde
flutuam bulcões e se reúnem cúmulos infindos, apinhados no Firmamento, que
dir-se-ia prestes a incinerar-se... Escutai os gemidos e murmúrios dos
agonizantes, o estrugir ininterrupto das fuzilarias, as vozes alteradas de
comando, o troar dos canhões, que parece mais intenso ecoado nos ares compactos
e enegrecidos... Tem-se a impressão, amados companheiros, de que se ouve o
incessante crocitar de um exército aéreo de abutres famulentos, chefiado pelo
vampiro insaciável da Guerra, espanejando lugubremente sobre os campos de
batalha, espreitando com insana alegria miríades de vitimas, para lhes sugar o
sangue e dilacerar-lhes as vísceras...
Há gritos, lágrimas, suspiros amalgamados neste ambiente impuro; há, além, corações tangidos de saudade, lembrando-se dos entes caros que, aqui, longe dos lares, mas aproximados pelo pensamento, em campo raso ou adarvados pelas trincheiras, já deixaram pender as armas da mão gélida ou mutilada; há extermínio de monumentos e de esperanças; há bramidos de tigres indianos e agonias plácidas de cordeiros… Homens vesanos! quereis fixar vossos ideais, vossa ambições sobre a Terra e haveis de, sempre, vê-los reduzidos a lama…
Tiranos cobiçosos! esquecei-vos de que não vos pertencem, neste mundo, nem sete palmos de terra, e desejais alongar vossos efêmeros territórios com fragmentos de outras nações - onde não podeis dirimir as consciências, o civismo, a heroicidade de seus filhos, esquecendo-vos de que este mísero átomo do Universo - orbe terráqueo - não é vosso, tem um único Soberano - Deus - ao qual tudo pertence e deveis prestar restritas contas de vossos atos?!
Quereis ampliar as fronteiras de vossas pátrias transitórias estreitando os horizontes de vossas almas imortais, que são partículas do Infinito? Insensatos! Quereis solos vastos - usurpando a sangue e fogo - nos quais deixais vossos cadáveres putrefatos, olvidando que tendes mundos etéreos e radiosos - pérolas do Oceano celeste - para escalar e conquistar com o exército da virtude e do aprimoramento moral? Quereis ser caudilhos da Terra quando podeis ser soberanos do Espaço? Porque não preferis os assaltos gloriosos às plagas da Ciência, das Artes, da regeneração psíquica - mais valiosas que todas as batalhas napoleônicas e carlovingianas, mais meritórias que a descoberta de Colombo, pois este descobriu apenas a fração de um mundo e vós podeis ainda desvendar o Ilimitado?
Ai! é porque ignorais o objetivo do homem planetário - o verme da Terra, que se pode alar aos páramos siderais; é porque desconheceis as Leis divinas, que condenam o fratricídio, o assestar de armas contra irmãos e companheiros de jornada! Quando em vossos corações, deslembrados do Criador, penetrarem sentimentos de solidariedade e abnegação, não empunhareis mais carabinas e gládios, mas sim alviões, escopros, pincéis, penas, tudo quanto engrandece e imortaliza os povos e não os aniquila...
Vêdes estes campos talados: o canhão substituiu a charrua; a fuzilaria emudeceu as canções dos campônios, o chilreio dos pássaros, o folguedo das criancinhas que, na atualidade, quando não são massacradas, estão famintas. . .
[...]Piedade, pois, senhor, para os que, tendo tido por berço as nações incriminadas de haverem ateado o facho da discórdia e da luta mundial, conservando sentimentos dignificadores e puros, são alvejados pela odiosidade de quase todos os habitantes dos países civilizados!
Insanos são os que, não possuindo
ideais generosos, incendem a pira dos prélios assassinos, dizendo que têm o
Eterno a protegê-los.
Quem ousa dizer que o Criador é o Rei
dos exércitos, profere uma grave blasfêmia: Ele condena cabalmente o
homicídio, singular ou coletivo, do Decálogo, de cuja procedência celeste não é
lícito duvidar-se. O Onipotente deseja a concórdia e não as dissensões
mortíferas; aspira a hastear em todos os orbes como - Arcas santas após o
dilúvio das iniquidades - o ramo de oliveira, no estandarte níveo da Paz, e não
empunhar o archote rubro das pugnas assassinas; quer a solidariedade universal
e não as seleções de raças, prejudiciais à unificação dos povos; quer irmanar
todos os homens e não alimentar em seus corações mútuos sentimentos
ultrizes.
As hostilidades bélicas infringem
suas Leis de amor, equidade e perdão. A espada é, para Deus, um punhal
fratricida que os códigos sociais tornaram legal, e, portanto, sobre ela não
pode incidir sua bênção luminosa. Quem quebrar o equilíbrio e a harmonia que
devem existir entre as nações, nunca será para Ele um herói, mas um bárbaro, um
corsário ou um precito!
Sobre ele recai todo o peso
formidável das responsabilidades tremendas de uma luta mortífera. Poderá ser
vencedor, cingido pelos lauréis corrosivos do mundo, - que lhe constringirão a
fronte como as serpes à cabeça de Medusa - mas seu Espírito tornar-se-á
denegrido, como que carbonizado; para se tornar novamente da cor lirial, são
precisos milênios de ríspidas provas, oceanos de lágrimas... O agressor arca
com todas as consequências funestas de uma liça inumana. Só a defesa dirime o
delito da guerra, é justificável e permitida pelo Direito sideral, porque a
criatura humana não possui, na Terra, maior tesouro que a própria vida, e deve
conservá-lo intato até que o Criador, que lho concedeu, o reclame, não para
sonegá-lo, mas para o ampliar no Além, a verdadeira pátria do Espírito, onde
ela se intensificará, desdobrar-se-á, como radiosa e imensa espiral, que começa
nos planetas sombrios e termina nos páramos acogulados de sóis!
A tragédia horrífica (...), não é o
produto de um único ser, mas da imperfeição humana, e - com pesar o digo - é
punição coletivo que servirá de corretivo a muitos infratores dos Códigos
social e divino. É lição dolorosa que o homem aprende com os olhos embrumados
de lágrimas, e não olvidará jamais...
Há na Guerra - dragão de Lerna, voraz
e fero, que só se ceva com sangue, cujas cabeças decepadas renascem
incessantemente, há milênios - às vezes, uma utilidade pungente; unifica os
povos e as nações, congrega filhos daquém e dalém mar, estanca estéreis dissensões
políticas e religiosas, termina divergências partidárias de crenças e de
castas, torna os indivíduos, nascidos sob céus diversos, irmãos nos campos de
batalhas renhidas, todos absorvidos pelo mesmo objetivo, pelo mesmo desejo,
enobrecidos pela bravura, pelo estoicismo, expondo dignamente a vida em socorro
da família, da Pátria, dos seus dirigentes, ameaçados por cruéis adversários.
Só a defesa de uma causa justa e
nobre dignifica o Crime dos que se digladiam ceifando existências úteis; é um
inconcusso direito humano, ao passo que a hostilidade e a agressão, fundados na
cobiça ou no ódio, embrutecem os beligerantes, tornando-os chacais ou panteras.
Quem desafia e provoca é delinquente ou bandido; quem se defende, vítima ou
herói.
Essa carnificina que, qual incêndio
sem chamas, devasta os países, é consequência desastrosa da corrupção da
Humanidade, é como borrasca, tanto mais violenta quanto mais condensadas estão
as nuvens de vapores, impurezas e eletricidade... As criaturas humanas
desembarcaram para o ateísmo, para a dissolução da família, para a frivolidade,
para o cepticismo, deixando correr a existência entre prazeres materiais nos
alcouces, nos cassinos, nos clubes suspeitos e, sem ideal, sem Deus, sem
sentimentos nobilitantes, marchando para a voragem da decadência moral, para o
cataclismo das iniquidades permitidas pela civilização hodierna... A
grande luta surpreendeu-as nas proximidades do abismo, fê-las recuar
espavoridas, ouvindo o ribombar da procela iminente, e, unânimes, congraçaram-se,
vincularam-se as que nasceram além de suas fronteiras, para, de mãos dadas,
culminar o almejado desiderato - a vitória da justiça, do direito dos povos, a
defesa dos territórios assaltados. Ei-las, por algum tempo, confraternizadas
para a consecução de uma causa grandiosa e comum. Foram a Dor e o perigo que
conseguiram esse prodígio que, no futuro, será operado unicamente pelo Amor,
quando todos compreenderem que, nascer aquém ou além de um mar, de uma
serrania, de um lago ou de um rio, não é deixar de ser filho do mesmo magnânimo
Progenitor, que criou o ente humano para elevados fins, com atributos psíquicos
maravilhosos, e fê-lo herdeiro de suas inúmeras moradas luminosas, seus reinos
radiosos, seus domínios siderais.
Duas borboletas, por serem uma jalde e
outra rubra, deixam de ser gracioso inseto? Duas rosas, por serem de rubim uma
e outra áurea, deixam de ter pétalas, fragrâncias? de ser a soberana das
flores? Não. Pois assim, o homem. A raça a que pertence pode apresentar
características distintas, epiderme diversamente coloridas; um nascer na
Sibéria, outro no Congo, mas há um liame a prendê-los mutuamente - a alma, a
cintila divina, como asa e aroma que identificam as falenas e as rosas. Hoje
estão os homens selecionados pelas convenções sociais, pela distância
geográfica; mais tarde serão eternos consócios, irmãos estremecidos, tendo o
mesmo destino grandioso, o mesmo Jardim celeste - o Universo!
Quando compreenderem essa verdade
sublime, deixarão de pugnar pela aquisição de terras, do lodo onde se corrompem
os seus despojos materiais - estes lastros putrescíveis que a alma, liberta dos
flagícios planetários, alija ao fundo dos sepulcros para se librar aos paramos
estrelados. . .
Que vale à estulta vaidade de um
monarca possuir infindos latifúndios, se a Morte apenas lhe concede,
transitoriamente, sete palmos de terra para a decomposição dos tecidos?
Um conquistador pode usurpar
territórios vastíssimos, encarcerar corpos carnais, fraturar ossos, trucidar,
decretar leis despóticas, abarrotar de ouro saqueado às vítimas os seus erários
fabulosos, mas não pode confiscar sentimentos nobres, rapinar consciências,
imperar nos espíritos livres e dignos - os aeróstatos apenas cativos por algum
tempo, mas que tendem a alçar-se, não na atmosfera, mas no éter, ao próprio
Infinito!
Que vem a ser um país que os
cobiçosos tanto desejam governar? Um retalho da Terra, um agregado de
habitantes instáveis. Aumentando suas raias, deixará de ser a fração de um
mundo, pequeno e cheio de trevas relativamente aos outros que povoam o Espaço?
Não. Haverá alguém que possa conquistar um Continente ou todo o orbe para nele
dominar? Jamais! Insano quem conceber esses planos hiperbólicos!
O homem - verme anônimo enquanto
rasteja nos marneis, conspurca-se na vasa terrena, acorrenta-se à ambição e ao
ódio; condor altaneiro quando sonha com a amplidão sidérea, quando fita os sóis
– será misero enquanto anelar destruir e hostilizar nações,
escravizar irmãos, implantar o terror e a luta em seus domínios, possuir terras
e ouro, e só se engrandecerá realmente quando entesourar virtudes no seu âmago,
cinzelar a própria alma, atingir a Perfeição psíquica, que o torna herdeiro
do Altíssimo, conquistador do Universo! Orgulhoso e estulto o que
deseja arrogar-se o poderio do Criador - reinar em todo o orbe terráqueo! Ele,
unicamente, foi e será o Soberano deste e de todos os mundos, aqui há de reinar
em todos os corações quando Soar a hora bendita da Fraternidade, porque esta
romperá todos os marcos limitativos, fundirá todas as fronteiras, consumará
todas as desarmonias, unirá todas as mãos, fará e todos os lares um só, de
todos os países uma só nação ilimitada!
Quando todos os povos, coesos pelo
pensar e por excelsos sentimentos, confederados pelas mesmas leis e pelos
mesmos elevados ideais, pela mesma admiração pelo Altíssimo, emancipados dos
preconceitos de raças e de hierarquias sociais fundarem a República
Unitária Mundial – tendo por Supremo dirigente o Sempiterno e por seus
representantes os mais conspícuos e esclarecidos cidadãos – hão de laborar em
comum para o embelezamento dos núcleos humanos e conforto de todas as classes;
abolir os pleitos bélicos; adotar um só idioma e um único padrão monetário com
o mesmo valor inter-cambial em todos os países; cultuar as Artes liberais, as
Ciências exatas, a Metafísica e o Psiquismo, para se relacionarem com
o Invisível; fundar Areópagos para arbitragem e decisão de todas as questões
internacionais por meios diplomáticos e legais, reger-se pelo mesmo pacto
fundamental, por uma só Constituição mundial; extinguir os exércitos e as
armadas, aplicando as cotas fantásticas despendidas com ambos na manutenção de
abrigos higiênicos, estabelecimentos pios, orfanatos, manicômios modelares,
patronatos, penitenciárias regeneradoras; desenvolver a aviação, a radiografia
e o aerófono para facilitar e ampliar as conexões intercontinentais, e, então,
nenhum braço se erguerá, jamais, para empunhar armas homicidas, que, por
prescindíveis, apenas hão de figurar nos mostruários dos Museus..."
Transcrito do livro: Do Infinito ao Calvário por Victor Hugo (espírito), psicografia de Zilda Gama.


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