INVERSÃO



    Nas possantes asas do pensamento eu caminhava velozmente. Quem não o faria? Pensar é fácil, imaginar é tão bom, principalmente quando sonhamos alcançar o que valorizamos.

    É aí que as coisas ficam confusas de vez em quando. Por que nos iludimos com facilidade, fantasiamos acontecimentos e situações que nem sempre concorrem para nossa felicidade?

    Afinal, no fim de tudo, o que conta mesmo é a felicidade. Seja qual for nossa posição, não é o que todos procuramos! E se não a encontramos como pretendemos, é porque partimos de uma visão distorcida da realidade.

    Aliás, digo isso não para criticar mas apenas para notar que a lucidez, a percepção da realidade são fatores importantes para alcançarmos nossos propósitos.

    Ser feliz é o que importa e se às vezes negamos que esse seja nosso maior objetivo, para não parecermos egoístas mostrando interesse pelo sucesso, saúde, bem-estar, esse fato torna-se claro como determinante de todas as nossas atitudes na vida.

    Pena que ainda sintamos medo de assumir essa verdade e nos perdemos em rodeios desnecessários gastando tempo e suor, dando voltas para no fim chegar ao mesmo lugar, por um caminho mais longo e complicado.

    Mas isso é conquista e experiência de cada um e não é de se lamentar, porque tudo na vida corre sempre certo e pelo melhor. Não concordam comigo? Acham que estou sendo otimista em excesso?

    Afirmo que não. Ser otimista na Terra é sempre insuficiente diante do quadro negativo e ilusório criado pelos homens e pela sociedade. Aí vocês vão dizer que eu digo isso porque estou bem, afortunadamente dispondo de recursos de inteligência e cultura para ajuda etc., etc., o que não ocorre com a maioria dos terrestres.

    E não faltará por certo aquele que colocará uma lista imensa de dados, mencionando hospitais, crianças, tragédias, limites, crueldades, ódios, guerras, ambições e toda sorte de problemas que assolam o mundo.

    Esquecem-se de que fui médico na Terra? Que perambulei por hospitais e tive contato com a dor, não só quando vivia na carne mas também agora tentando prestar serviços àqueles que precisam? E olhe que eu faço isso porque ser útil, cooperar com o progresso, com o bem-estar de todos é muito bom e agradável. Traz alegria ao coração perceber que as crianças crescem, que os espíritos progridem e aprendem a cada dia, tornando-se mais capazes e felizes

    É uma utopia? Não penso assim. Sabem por quê? Porque sei que o progresso é lei da vida e nada é mais verdadeiro e efetivo do que ele.

    Por isso, não acredito em dramas, nem em tragédias, embora lamente que pessoas ainda as alimentem e reproduzam.

    Sentir o prazer de ajudar, cooperar, progredir, é altamente motivador. Pena que quando estamos no mundo nos deixemos fascinar pelo que parece e não pelo que é. Entramos na mente social, metemos os pés pelas mãos, para acabarmos desiludidos e tristes, acabrunhados e desmotivados, descrentes e indiferentes aos sofrimentos e necessidades dos outros.

    Aí vocês vão dizer:

    — Mas não foi você mesmo quem disse que as tragédias são lusórias!

    O que eu disse é que as pessoas podem escolher outro caminho e aprender de outra forma, não precisando necessariamen te de tanta dor e tanto esforço para tornarem-se mais conscientes. Só isso.

    Olhe que eu falo porque nestes anos todos aqui, onde tenho procurado cooperar e prestar serviços à comunidade (sinto prazer nisso), entrei em contato direto com pessoas que na Terra têm o dispõem a ajudar os outros. Seja prestando ser mesmo desejo e serviços voluntários em obras filantrópicas, seja cooperando profissionalmente para o mesmo fim.

    Engraçado é que na Terra as pessoas costumam separar a ajuda. Acreditam que a verdadeira ajuda, a mais nobre, seja o trabalho voluntário não remunerado. Isso é conceito muito materialista e terreno. É limitar a cooperação e a fraternidade ao desejo de uns poucos e muitos deles inexperientes nas atividades de auxílio.

    A fraternidade, a cooperação, a ajuda efetiva vai muito além disso. Envolve todas as coisas.

    Os espíritos superiores não condicionam sua cooperação aos pobres e acanhados critérios da sociedade terrena. Vão muito além. Eles valorizam tudo que pode contribuir para o progresso do espírito e esse conceito inclui tudo que acontece no mundo.

    Não separa pessoas pelo rótulo religioso nem pelo dinheiro que elas possam movimentar. Aliás, ao contrário do que a maioria pensa aí, o dinheiro, o poder político, o conhecimento, o potencial de um líder, a capacidade de fazer e criar coisas, desde que favoreçam o desenvolvimento do ser humano, são altamente cotados com nossos superiores.

    Estão surpresos? Um milionário, um empresário, um banqueiro, poderão "entrar no reino de Deus"? Se eles corresponderem a esse objetivo, claro que sim. Não conseguirá esse aval o rico que ainda não aprendeu a fazer o dinheiro circular e apenas o enterrou na inutilidade. Mas até esse conceito, aqui, perde o caráter que a ele se dá na sociedade terrena, porque o usurário, mesmo iludido, consegue apenas atrair experiências que o ensinem a enxergar a função nobre do dinheiro.

    Aí vocês dirão:

    — E as pessoas que ele prejudicou, que ele explorou?

    O empresário que fez o mesmo com seus empregados não estaria no mesmo caso? Tanto um como o outro, segundo as leis universais, prejudicaram apenas a si mesmos, gerando experiências desagradáveis para o futuro. Quanto às pessoas que se deixaram lesar por eles, atraíram essa experiência para si, porque permitiram, aceitaram esse domínio.

    E atrás desse processo sempre há a falta de vontade, o desejo de viver pendurado nos outros, no pai, no patrão, no governo, na família, etc. E, nesse caso, o melhor para eles é experimentar essa situação até que percebam que possuem poder e força para escolher e fazer o que quiserem de suas vidas.

    A vida na Terra nada mais é do que um treino onde nos matriculamos por certo tempo, para desenvolvermos nosso potencial de espírito eterno.
    
    Por isso há tantas e diversificadas experiências no mundo. E nesse laboratório o importante é desenvolver a consciência. E para isso há que estar atento, sentir, buscar.

    A sociedade criou regras para disciplinar a comunidade. Porém os homens estabeleceram valores muito distanciados da realidade. Eu diria, mesmo, completamente invertidos daquilo que são. Quem se dispõe a ajudar o outro deseja fazer por ele, e esse engano tem levado muita gente bem intencionada ao fracasso.

    Prestar serviços voluntários em uma igreja, em um hospital, em um centro espírita, é nobre e valioso. Porém, por mais que a pessoa se dedique desinteressadamente "sem recompensa", ela fica feliz em perceber que sua intervenção foi bem-sucedida. Isso é natural e alimenta a motivação. Mas nada mais triste do que manter um orfanato por trinta anos para depois chegar à conclusão de que não preparou bem as crianças para enfrentar a vida em sociedade e quando elas saíram, despreparadas, tornaram-se presa fácil para a dor e o desequilíbrio.

    Por isso, como a mãe ou o pai que prejudicam os filhos com superproteção, enfraquecendo-os e tornando-os frágeis para viver em uma sociedade competitiva, a ajuda também vai muito além do donativo, seja de que espécie for.

    E embora ele seja útil, em alguns casos revela apenas falta de confiança no potencial de quem recebe, diminuindo suas chances de desenvolvimento, simplesmente confirmando e atestando uma incapacidade na qual a pessoa acredita e que foi a causa de ela estar carente.

    Perceberam como vemos aqui? Por isso, Ina Terra todos os empreendimentos, os grupos, sejam de que espécie forem, são medidos e auxiliados (não com os critérios terrenos) a que cresçam e se fortaleçam.

    A princípio esse assunto me espantou. Como?! Era importante socorrer uma indústria tanto quanto os lamentos dos que estavam em um hospital? Não concordei. Quando cheguei aqui pensava que salvar os que sofrem fosse o mais importante.

    Foi meu amigo Jaime quem me esclareceu:

    — Temos muitos cooperadores nos hospitais da Terra. Ninguém está esquecido, porém o trabalho lá não é muito grande. Está bem distribuído. Enquanto em outras áreas há maior necessidade.

    — Como assim? — disse, escandalizado. — O que pode ser mais importante do que suavizar a dor?

    Ele sorriu de minha euforia e respondeu:

    — Você está confundindo as coisas. Seu critério ainda é terreno. Quando a dor está trabalhando nas pessoas, não podemos fazer muito. Ela só aparece após haver esgotado todos os outros recursos.

    E por isso é preciso deixá-la seguir seu curso. É parte do processo que a pessoa precisa. Por isso, embora lamentemos, não podemos impedi-la de agir. É o remédio para o caso. Não há muito a fazer a não ser esperar. Já nos grupos sociais da Terra, o trabalho é outro. Há desenvolvimento, experiências, treinamento, relacionamento, aprendizagem.

    — Em uma empresa? Em uma loja?

    — Claro. Lá existe competição, hierarquia, motivação ao crescimento. Em todos os lugares, o que realmente importa é o potencial humano. Ele pode desenvolver ou acabar com um empreen-dimento.

    — Isso é verdade. Mas é um jogo de interesses materialistas.

    — E o que é o dinheiro senão um estímulo ao desenvolvimento? O que é uma organização senão um desafio a que as pessoas testem seus conhecimentos e sua força?

    — Tudo isso então...

    — É apenas um veículo para o desenvolvimento do espírito.

    — Olhando dessa forma...

    — É só o que há. Apenas isso.

    — Nesse caso, há muitos cooperadores de nosso plano prestando serviços nesses lugares?

    — Por certo. As pessoas apaixonam-se por setores da sociedade e criam novas formas de progresso. Quando vêm para cá, continuam com essa preferência e prestam serviços nesses setores.

    — Pena que alguns desses líderes na Terra não saibam disso.

    — Os verdadeiros líderes, até sabem. Há muitos deles cujas fortunas são no mundo veículos de desenvolvimento nas artes, nas belezas espirituais que melhoram o ambiente e alimentam a alma.

    — Os que fazem os museus e investem grandes somas em centros de pesquisas...

    — Que sem meios nunca existiriam.

    Depois desse dia tenho observado. Não é que ele tinha razão?

    Por isso, agora, tenho visto as coisas de forma diferente. Percebi que a cooperação, a dignidade, a integridade vão muito além das aparências. E que nem tudo que parece é.

    Ajudar parece fácil e nós podemos até achar que estamos fazendo isso, mas será que é?

    Será que estamos contribuindo para o desenvolvimento das pessoas ou estamos apenas confirmando a ilusão da carência, da incapacidade e da burrice?

    Cada um agora pare para pensar. Quanto a mim, tendo aprendido o que aprendi, concluí que prevenir é melhor do que remediar.

    Isto é, confiar que cada um pode fazer por si, que é bom o bastante, que tem capacidade, e dar apoio a que eles façam é melhor do que assumir o posto de salvador do mundo, herói supercaridoso e querer fazer por ele. Garanto que agindo assim evitaremos muitos dissabores.

    Vamos experimentar?

***

Transcrito do livro: Pare de Sofrer de Silveira Sampaio, psicografia de Zibia Gasparetto

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