O Universo não é uma Idéia Minha...
O universo não é
uma idéia minha.
A minha idéia do
Universo é que é uma idéia minha.
A noite não
anoitece pelos meus olhos,
A minha idéia da
noite é que anoitece por meus olhos.
Fora de eu
pensar e de haver quaisquer pensamentos
A noite anoitece
concretamente
E o fulgor das
estrelas existe como se tivesse peso.
Viajar? Para
viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio
do meu corpo, ou do meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os
gestos e os rostos, sempre iguais e sempre diferentes, como, afinal, as
paisagens são.
Se imagino,
vejo. Que mais faço eu se viajo? Só a fraqueza extrema da
imaginação justifica
que se tenha que deslocar para sentir.
"Qualquer
estrada, esta mesma estrada de Entepfuhl, te levará até ao fim do mundo".
Mas o fim do mundo, desde que o mundo se consumou dando-lhe a volta, é o mesmo Entepfuhl
de onde se partiu.
Na realidade, o fim do mundo, como o princípio,
é o nosso
conceito do mundo.
É em nós que as
paisagens tem paisagem.
Por isso, se as
imagino, as crio;
se as crio, são;
se são, vejo-as como ás outras.
Para que viajar?
Em Madrid, em Berlim, na Pérsia, na China, nos Pólos ambos, onde estaria eu
senão em mim mesmo, e no tipo e gênero das minhas sensações?
A vida é o que
fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos,
senão o que somos.
(Alberto Caeiro / Fernando Pessoa)



Comentários
Postar um comentário