RESPONSABILIDADE




Na vida, como na morte; na Terra ou além da Terra, jamais estareis sós, mas na constante companhia de seres e coisas que participam de vossa vida e de vossa morte, assim como vós participais da vida e da morte deles.

Assim como participais deles, eles participam de vós; assim como os buscais, assim eles vos buscam.

O Homem tem sua conta com todas as coisas, e estas têm sua conta com o Homem. Esse intercâmbio segue sem interrupção.

A memória do Homem é um mau guarda-livros; não assim, porém, a perfeita memória do Tempo, que conserva sempre em dia as contas de sua relação com os dos seus contemporâneos e outros seres do Universo e os força a acertar suas contas num piscar de olhos, vida após vida, morte após morte.

O raio jamais feriria a casa se a casa o não atraísse.

A casa é tão responsável pela sua ruína quanto o raio.

Um touro jamais chifra um homem se o homem não o convidar a chifrá-lo.

E na verdade aquele homem deve responder mais pelo seu sangue do que o boi.

O assassinado afia o punhal do assassino e ambos desferem o golpe fatal.

O roubado dirige os movimentos do ladrão e ambos cometem o roubo.

Sim, o Homem convida as suas próprias calamidades e depois protesta contra os hóspedes importunos, por se haver esquecido quando e como escreveu e enviou os convites.

O Tempo, no entanto, jamais esquece; e o Tempo a tempo e horas entrega o convite no endereço certo; e o Tempo conduz cada convidado à casa do anfitrião.

E em verdade vos digo, jamais protesteis contra um hóspede, para que ele não se vingue, demorando-se muito tempo ou tornando as suas visitas mais frequentes do que seria normal.

Sede bondosos e hospitaleiros para com vossos hóspedes, seja qual for o seu procedimento ou o seu comportamento; pois na realidade são vossos credores. Daí aos mais importunos do que deveis, para que se vão gratos e satisfeitos e para que, se voltarem a visitar-vos, o façam como amigos e não como credores.

Tratai cada hóspede como hóspede de honra, a fim de que, captando-lhes a confiança, possais descobrir os motivos ocultos de sua visita.

Aceitai a desventura como se fosse ventura, pois uma desventura, uma vez compreendida, logo se transforma em ventura.

Por outro lado, a ventura mal compreendida muito em breve se torna desventura.

(Transcrito do livro: O livro de Mirdad de Mikhail Naimy)






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